"I watch the time pass slowly. It comes and goes like the waves. The sea can touch the sky at night. It's got the freedom I crave."

Michael Connelly – The Narrows

“Connelly é um mestre e esse romance é mais uma de suas obras-primas… O suspense é estável em toda a obra… Uma trama dinâmica, personagens brilhantes e uma meticulosa atenção aos detalhes… Há uma força de caráter ao mistério/thrillers de Michael Connelly, um compromisso fundamental no valor da vida humana e a necessidade pelos cumprimentos da lei pra defender os valores que define seu trabalho à parte e acima de muitos de seus contemporâneos.”

____ Publisher Weekly ____

Tradução dos 2 primeiros capítulos de The Narrows de Michael Connelly:

http://www.michaelconnelly.com/novels/thenarrows/

THE NARROWS – OS CANAIS

Acredito que talvez eu saiba uma única coisa nesse mundo. Uma coisa é certa. A verdade não te liberta. Não que eu tenha ouvido isso e que eu tenha dito a mim mesmo incontáveis vezes que já sentei em salas pequenas e celas com meros homens esfarrapados confessando seus crimes a mim. Menti à eles, trapaceei. A verdade não te salva nem te faz inteiro de novo. Não te permite passar por cima de um monte de mentiras e segredos e ferir o coração. As verdades que eu tenho aprendido me seguraram como correntes numa sala escura em um submundo de fantasmas e vítimas que me envolveram como cobras. Um lugar onde a verdade não é algo há ser olhado ou contemplado. É um lugar onde o mau espera. Onde leva sua respiração, cada suspiro, de sua boca, seu nariz, até você não conseguir escapar mais. Isso é o que eu sei. A única coisa.

Eu sabia que um dia chegaria o dia em que pegaria um caso que me levaria até os canais. Eu sabia a missão de minha vida seria sempre me levar a lugares onde o mau espera, onde a verdade que eu devo encontrar seria uma coisa feia e horrível. E mesmo assim não parei. E ainda que não estando pronto para o momento de quando o mau viria de seu lugar de espera. Até que isso me agarraria como um animal pra dentro da água negra.

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Capítulo 1


Ela estava no escuro, flutuando no mar negro e um céu sem estrelas acima. Não ouvia nada e não via nada. Era um perfeito momento obscuro até que Rachel abriu os olhos de seu sonho.

Olhou para o teto e ouviu o vento do lado de fora e os galhos das azaléias baterem na janela. Pensou se o barulho eram as azaléias no vidro ou vinha de outro lugar da casa que tinha a acordado. Então seu celular tocou. Não tinha se assustado. Calmamente alcançou o criado-mudo. Levou o celular até o ouvido estava bem alerta quando respondeu, sua voz não mostrava que tinha sono.

“Agente Walling”, disse ela.

“Rachel? É Cherie Dei.”

Rachel sabia muito bem que não era uma chamada restrita. Cherie Dei queria dizer Quantico. Tinham se passado quatro anos desde a última vez. Rachel esperava isso.

“Onde você está, Rachel?”

“Em casa. Onde acha que eu estaria?”

“Eu sei que cobre uma boa parte do território agora. Eu pensei que talvez _”

“Eu estou em Rapid City, Cherie. O que é?”

Ela respondeu depois de um longo momento de silêncio.

“Ele ressurgiu. Voltou.”

Rachel sentiu um invisível murro em seu peito e tentou se segurar. Sua mente buscou memórias e imagens. Nada boas. Ela fechou os olhos. Cherie Dei não precisou usar um nome. Rachel sabia que era Backus. O Poeta tinha ressurgido. Eles sabiam que isso aconteceria. Como uma infecção de vírus que move no corpo, escondida por anos, então aparece na pele como sinal de sua fealdade.

“Conte-me.”

“Há três dias nós conseguimos algo em Quantico. Um pacote do correio. Continha _”

“Três dias? Vocês receberam isso ha três _”

“Nós não recebemos nada. Tomamos nosso tempo com isso. Estava endereçado a você. A Ciências do Comportamento. O correio nos trouxe isso, passamos pelo detector e só depois abrimos. Cuidadosamente.”

“O que tinha?”

“Um leitor de GPS.”

Com sistema de posição global. Coordenadas longitude e latitude. Rachel havia encontrado um em um caso no ano passado. Um seqüestro fora de Badlands onde uma desaparecida de um camping tinha marcado sua trilha com um GPS de mão. Encontraram isso em sua mochila e seguiram seus passos de volta ao campo onde ela tinha encontrado um homem e ele a tinha seguido. Chegaram lá tarde demais pra salvá-la, mas jamais teriam encontrado o local se não fosse pelo GPS.

“O que tinha nisso?”

Rachel se sentou e colocou as pernas pra fora cama. Levou a mão que estava livre ao estômago e a fechou como uma flor morta. Esperou e logo Cherie Dei continuou. Rachel se lembrou de certa vez de quando ela era tão imatura, apenas observava e aprendia no grupo designado a ela no programa de mentores do departamento do governo. Dez anos depois os casos, todos os casos, tinham talhado fendas em sua voz. Cherie não era mais imatura e não precisava mais de mentor.

“Tinha um ponto de partida. O Mojave. Na fronteira de Califórnia e Nevada. Nós voamos ontem e fomos até o alvo. Temos usado imagem térmica e detectores. Ontem tarde, encontramos o primeiro corpo, Rachel.”

“Quem é?”

“Não sabemos ainda. É velho. Estava lá há um bom tempo. Estamos só começando. O trabalho de escavação é lento.”

“Você disse primeiro corpo. Quantos mais têm?”

“Até quando saí de lá, eram quatro. Achamos que tem mais.”

“Causa da morte?”

“Muito cedo.”

Rachel ficou em silêncio enquanto pensava nisso. As primeiras perguntas que passaram pela sua cabeça foram por que lá e por que agora.

“Rachel, não estou ligando apenas pra te contar isso. Eis a questão, o Poeta está novamente em ação e nós a queremos aqui.

Rachel sinalizou a cabeça concordando. Era uma deixa de que ela podia ir pra lá.

“Cherie?”

“O que?”

“Por que você pensa que foi ele quem enviou o pacote?”

“Não pensamos. Sabemos. Conseguimos identificá-lo numa pequena marca de impressão digital no GPS. A digital de seu polegar de quando ele trocou as baterias. Robert Backus. É dele. Ele voltou.”

Rachel abriu sua mão lentamente analisando-a. Ainda estava imóvel como uma estátua. O pavor que ela havia sentido por um instante estava sumindo. Ela poderia admitir isso a si mesma, mas a mais ninguém. Podia sentir seu sangue circular novamente em um vermelho escuro. Quase negro. Ela tinha esperado muito por essa ligação. Dormia toda noite com o celular bem perto dela. Sim, era parte do serviço. As chamadas de fora. Mas essa era a chamada que ela realmente esperava.

“Você pode nomear esses pontos,” Dei falou em silêncio. “No GPS. Mais de vinte caracteres e espaços. Ele chamou isso de ‘Olá Rachel’. Num encaixe perfeito. Acho que ele ainda tem algo pra você. Parece que ele está te chamando, que tem algum tipo de plano.”

Rachel buscou uma imagem na cabeça de um homem caindo de costas atravessando um vidro para a escuridão. Desaparecendo no meio da escuridão total.

“Estou a caminho”, disse ela.

“Estamos saindo do campo de Las Vegas. Será mais fácil cobrir esse caso de lá. Tome cuidado, Rachel. Não sabemos o que ele tem em mente com isso, sabe? Esteja alerta.”

“Estarei. Sempre estou.”

“Ligue-me para os detalhes e eu te pego.”

“Ligarei,” respondeu.

Então ela apertou o botão para desconectar a chamada. Alcançou o criado-mudo e acendeu a luz. Num instante ela se lembrou do sonho, o silêncio da água negra e o céu acima, como espelhos negros um frente ao outro. E ela no meio, apenas flutuando.

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Capítulo 2


Graciela McCaleb estava esperando em seu carro, frente a minha casa em Los Angeles, quando cheguei. Ela estava pontual para nosso encontro, mas eu não. Estacionei rapidamente no abrigo e saí logo para cumprimentá-la. Ela não parecia aborrecida comigo. Parecia estar com a cabeça em outro lugar.

“Graciela, sinto muito pelo atraso. O trânsito da manhã me pegou.”

“Tudo bem. Eu estava apreciando aqui. É muito calmo.”

Destranquei a porta. Quando empurrei pra abrir, encalçou em alguma coisa do correio que estava no chão do lado de dentro. Eu tive que agachar no chão e empurrar os envelopes pra poder abrir a porta.

Eu me voltei a Graciela e estendi minha mão pra dentro de casa. Ela passou por mim e entrou. Eu não sorri diante as circunstâncias. A última vez que a vi foi num funeral. Ela não parecia muito bem ainda, o pesar em seus olhos e nos cantos de sua boca ainda estavam lá.

Enquanto ela passou por mim nessa entrada estreita senti uma fragrância doce de laranja. Eu me lembrei do funeral, de quando apertei suas mãos com minhas duas mãos, dizendo o quanto sentia por sua perda e ofereci minha ajuda se ela precisasse de qualquer coisa. Ela estava usando preto. Desta vez estava usando um vestido florido que combinava melhor com a flagrância. Eu apontei para a sala de estar e disse pra se sentar no sofá. Perguntei se queria tomar alguma coisa, mesmo sabendo que não tinha pra servi-la, provavelmente umas garrafas de cerveja na caixa e água de torneira.

“Eu estou bem, Sr. Boch. Não, obrigada.”

“Por favor, me chame de Harry. Ninguém me chama de Sr. Boch.”

Agora tentei rir, mas não funcionou com ela. Não sei por que achei que iria. Ela já tinha sofrido muito. Eu tinha visto o filme. E agora essa trajédia. Eu sentei na cadeira de frente ao sofá e esperei. Ela limpou a garganta antes de falar.

“Acho que sabe por que eu precisava falar com você. Não fui muito clara ao telefone.”

“Tudo bem,” eu disse. “Mas me deixou curioso. Algo errado? O que posso fazer por você?”

Ela mexeu a cabeça e olhou pras suas mãos, as quais seguravam uma bolsa porta-níquel preta no seu colo. Devia ter comprado isso para o funeral.

“Tem uma coisa muito errada e eu não sabia a quem recorrer. Conheço o bastante de Terry – quero dizer como eles trabalham – pra saber que não posso ir à polícia. Ainda não. Além disso, eles virão até mim. Breve, eu suponho. Mas até lá, preciso de alguém de confiança e que irá me ajudar. Posso te pagar.”

Inclinando-me pra frente coloquei meus cotovelos sobre os joelhos e juntei minhas mãos. Eu só tinha a encontrado aquela vez – no funeral. Seu marido e eu tínhamos sido próximos por um tempo, mas não nesses últimos poucos anos, e agora era tarde demais. Eu não sabia de onde vinha essa confiança que ela me falava.

“O que Terry te contou que faria você confiar em mim? Escolher-me. Você e eu nem nos conhecemos, Graciela.”

Ela sinalizou a cabeça concordando em serem perguntas e cobranças justas.

“Uma vez em nosso casamento Terry me contou tudo. Contou-me sobre o último caso em que vocês trabalharam juntos. Contou-me o que aconteceu e como vocês salvaram as vidas um do outro. No barco. Então isso me faz pensar que posso confiar em você.”

Balancei a cabeça.

“Ele uma vez me contou uma coisa de você que eu sempre vou me lembrar,” ela acrescentou. “Ele me disse que tinha coisas em você que não gostava e não concordava. Acho que falava do jeito de como vocês fazem as coisas. Mas disse no final do dia, depois de todos os policiais e agentes que ele conheceu e trabalhou junto, se ele tivesse que pegar alguém pra trabalhar num caso de  homicídio, seria você. Ele te daria isso. Disse que seria você porque nunca desistiria.”

Senti um aperto em meus olhos. Era quase como se eu pudesse ouvir Terry McCaleb falando isso. Eu fiz uma pergunta já sabendo a resposta.

“O que quer que eu faça por você?”

“Quero que investigue sua morte.”

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Autor: Michael Connelly

Tradução: Eliana Lara Delfino

Fonte: http://www.michaelconnelly.com

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